quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Texto publicado na Revista Pindaíba#11

Regressão é o processo de se trabalhar a mente para que uma pessoa possa chegar a lembranças de vidas passadas. Segundo o espiritismo o mundo já está completo de pessoas. Quando nascemos somos a reencarnação de outra pessoa em outra época e quando morrermos nosso espirito irá vagar por aí até encontrar outro corpo. Allan Kardec que o diga: “No nosso subconsciente estão guardadas todas as informações sobre nossas vidas anteriores”.

Assim sendo, em 1843, na tradicional cidade de São Petersburgo, ao noroeste da Rússia, vivíamos eu e um meio-nutrido cavalo, mas muito bom de carga, em um simples casebre, feito com minhas próprias mãos ao barro e madeira, localizado ao pé da montanha Pavlovsk, cercada de outras montanhas e de uma bela cachoeira de aproximadamente 50 metros de altura, onde brotavam-se dezenas de pequenas quedas d’água. Um visual de encher os olhos. A chamávamos de vila Borovichi, com apenas mais outras poucas casas.
Há onze léguas e meia dali funcionava a capital Pushkin, onde habitavam barões em seus enormes casarões, banqueiros, políticos, boêmios e, é claro, algumas donzelas de saia rodada e de longos cabelos cacheados. Donzelas essas que sustentavam-se basicamente com a produção de espumantes, tecidos, com a colheita de frutas, verduras, vendas de animais e seus derivados, para os ricos e detentores do poder e da moral vigente.
Na vila Borovichi vivíamos do nosso próprio sustento, tudo que precisávamos para alimentação tínhamos de sobra por de trás das montanhas. Para ganhar algumas moedas de ouro colhia uvas e batatas, para vender aos donos de bares e pequenos produtores de vinho.
Com as poucas moedas que ganhava, comprava apenas alguns agasalhos para me proteger do gélido frio das colinas, alguns livros contrabandeados de anônimos escritores franceses. O restante satisfazia minha sede de álcool e sexo, com jarras e jarras de vinho, e as belas mulheres a disposição.
Com a chegada do inverno tive que abandonar as batatas e me dedicar apenas às uvas, pois, a produção de vinho havia quadruplicado. Perdi grandes noitadas no Catarina, o maior e mais movimentado bar da Bolshói Prospekt (para os íntimos, a avenida da putaria), onde se apresentavam as Formosas de Moscou, com sua dança típica: o ritual da depravação. Perdi também o Campeonato da Jarra, onde vence aquele que mais jarras de vinho tomar em menor tempo – soube que o campeão tomou 12 jarras em um minuto -, sem falar os discursos antiburguesia em cima das mesas, e ainda as várias rodadas de poesias, com direito a declarações de amor do Sr. Akim Chipuliénko para a mais sensual dançarina da capital russa a Srta. Martha Petrovna. Porém, estava com bastante ouro – o que não justifica a perda desses maravilhosos dias de festa.
Contudo consegui comprar ainda novas roupas, sapatos, meias de lã e agasalhos vindos de Berlim. Minha sorte foi que ainda pude terminar a colheita a tempo de pegar os últimos dias de festa de inverno, tradicional entre os boêmios e barões de São Petersburgo, cada um do seu lado é lógico. Peguei precisamente as últimas 30 horas.
Com roupas novas e moedas suficientes para cinco noites, a tertúlia foi uma constante. Cheguei ao Catarina no momento em que o Sr. Porfírio Ivânovitch, o proprietário, subia ao balcão para o discurso de encerramento, antes de toda bebedeira de final de festa. Peguei uma caneca de vinho e ele começou:
- Senhoras e senhores boêmios de São Petersburgo e de toda Rússia, hoje dá-se início a um marco da vanguarda russa. Encontram-se aqui poetas, escritores, artesãos, prostitutas, agricultores. Pensei comigo como minha profissão se igualava à tantas outras importantes profissões para esse sábio homem. E ele continuou:
- Gramáticos, faxineiros, barbeiros, engraxates, mascates e músicos de várias partes dessa vasta terra chamada Rússia. Barões, políticos, banqueiros, economistas, sacerdotes e marechais são a escória que sustentam a miséria, a discórdia e a cólera que há em nossas vidas, não deixemos sob hipótese alguma de resistir à opressão da burguesia, diante a nossa pretensão de sermos boêmios e propagandistas das coisas boas da vida.
E antes que todos berrassem os seus gritos de guerra, me antecipei, intercalando o discurso do Sr. Ivânovitch levantando minha caneca já quase pela metade:
- Que viva o vinho!
Todos:
- Viva!
Um poeta da cidade de Serpukhov no mesmo gesto me sucedeu:
- Que vivam essas belas mulheres!
Mais uma vez todos:
- Viva!
E finalizando a cerimônia, a bela Amália Romanovna deu por encerrado o discurso gritando com todo louvor e repetindo o ato coletivo da caneca:
- Música nesse cabaré!
Assim, nesse clima de libertinagem total a polca tocou solta até que o sol timidamente jorrasse os seus primeiros raios, mas em se tratando de inverno russo, a meia-escuridão foi predominante durante todo o dia.
Lá pra três horas da tarde, acordo, para minha surpresa, ao lado de duas belas damas, só de casaco e meias, sento-me à beira da cama sem deixar que ambas acordassem, acendo um charuto e tomo um gole do vinho de “ontem” (ou talvez de “hoje” mesmo) ainda meio frio.
Com a cabeça rodando, levanto-me, procuro tentando lembrar o que fiz na noite passada e como fui parar ali, ao lado daquelas mulheres, não que eu estivesse achando ruim, muito pelo contrário. Por um instante me aflito ao lembrar do meu saco de moedas, ufa! Ele ainda estava lá no bolso da minha calça, não tão cheio como horas antes, mas ainda cheio o suficiente para alimentar meu cavalo e minhas bebedeiras até o dia de minha volta para Pavlovsk.
Voltando a sacrificar meus neurônios, recordo-me que por um momento saí do bar – não lembro que horas – e fui atrás de prevaricação em uma festa promovida pela família do barão Semión Românovitch, com dois amigos artesãos Pedro Petrovich e Dmitri Ilítch.
Já com as roupas vestidas, encho a caneca novamente de vinho e sento a beira da janela fumando meu charuto e concentro meu olhar no horizonte a minha frente, lembrando agora dos detalhes da noite anterior. Lembro que ao irmos ao casarão dos Românovitch, tentamos com a maior cara de pau do mundo entrar pela porta da frente, - como poderia, três boêmios visivelmente bêbados, membros da vanguarda tradicional de São Petersburgo, adentrar na festa dos seus maiores inimigos? – e como esperado, fomos barrados, e o que é pior, a empurrões e tabefes. Foi então que Pedro Petrovich lembrou que havia tido uma noite de prazer com uma das empregadas do barão há duas semanas atrás, e lembrou ainda que a mesma estava louca por uma segunda vez.
A chantagem deu certo, entramos pela porta dos fundos de forma que ninguém nos percebesse. Contudo fomos vistos, começou-se uma correria pelos corredores da mansão e acabamos nos espalhando. Nessa correria fui parar na biblioteca, foi uma experiência única, a quantidade de livros me deixou de queixo no chão, sai engolindo as prateleiras lendo título por título, tocando-os, não acreditando que aquilo tudo estava a minha frente, peguei um Vitor Hugo, e quando menos esperava bruscamente a porta é aberta, jogo o livro para o alto e me escondo de baixo da mesa, ouço uma voz doce e suave perguntar:
- Quem está aí?
Já aflito penso comigo, estou fudido, fui encontrado e vou passar o fim da festa de inverno toda na prisão. E mais uma vez a voz pergunta, agora com um tom mais aguçado:
- Quem está aí?
Continuo escondido, mas dessa vez a voz ameaça:
- Vou anunciar a guarda do barão se não disseres quem está aí debaixo dessa mesa!
Sem ter para onde fugir levanto-me aos poucos já sentindo o frio de mais uma noite naquela maldita cela, na última vez quase peguei uma pneumonia. E meio receosa ela perguntou:
- O que fazes o senhor aí escondido?
Fiquei estático, não imaginava que seria descoberto por uma dama tão linda. Seu vestido rodado vermelho, cor de sangue, seus cabelos longos, castanhos e cacheados, sua pele branca como uma porcelana suíça, sua boca carnuda pintada da cor de seu vestido e seus olhos grandes esverdeados. E ela repete, com um tom já diferente de outrora, senti que o impacto foi recíproco:
- Ande, diga-me logo o que fazia o senhor aí escondido de baixo da mesa?
E olhando profundamente em seus olhos, percebo sua maquilagem levemente borrada, notei que havia derramado algumas lágrimas. Antes que a respondesse aproximou-se e pegou o livro que eu estava lendo, e disse:
- Você estava lendo esse livro? Eu adoro Vitor Hugo.
E meio sem jeito, mas aliviado, aproximo-me e respondo-a:
- É, mas a senhorita por acaso estava chorando?
Ela abaixou a cabeça e disse:
- Estava, mas não falo de minha vida a estranhos.
E para que eu não visse que voltara a chorar, virou-se rapidamente, jogando seus lindos e cacheados cabelos sobre meu rosto. Já apaixonado pela sua doçura, sinto seu perfume que me lembraram rosas brancas, suspiro e continuo:
- Porque uma senhorita tão bela e doce como você estaria chorando em uma noite de festa tão maravilhosa como esta?
Ela então não resiste ao meu interesse e vira-se aos poucos em minha direção, tentando conter as lágrimas, cabisbaixa, respondendo:
- É meu noivo, filho do barão Mikolai, disse que não iria mais envergonhar-me na frente dos outros, só por que sou do interior e de família pobre, por isso vim para a biblioteca ficar um pouco sozinha.
Caminho ao seu encontro com um lenço na mão e pergunto o que ele havia lhe dito, ela agradece pelo lenço e diz:
- Quando um dos senhores dirigiu-me a palavra sobre ópera italiana, antes que eu o respondesse, ele me interrompeu, dizendo que no interior não se tinha conhecimento sobre essas coisas da civilização. Então inventei uma desculpa e saí.
Logo em seguida, após seu lamento, declamo um trecho de meus poemas, que referencia a dureza dos poderosos diante delicadeza das mulheres. E admirando a delicadeza com que limpava seu rosto:
“OS RICOS PODEM DETER O PODER, A POLÍTICA E A ECONOMIA, MAS NÃO SABEM QUE A MAIOR BELEZA DAS MULHERES ESTÁ EM SEU CORAÇÃO, NÃO NO PREÇO QUE ELES PODEM PAGAR POR ELAS”.
Ela me dirige seu olhar ainda tristonho dizendo:
- Isso é Novalis, ele era um burguês enrustido, sedutor e machista.
- Estais enganada jovem esse é um trecho de um de meus poemas.
- É, e qual o seu nome por acaso, já que nunca li seus poemas no Jornal Municipal?
Naquela época, só quem publicava livros de grande circulação eram os que escreviam para o Jornal Municipal, de propriedade do barão Semión Românovitch, anfitrião da festa .
- Diga-me você o seu nome, pois confesso que fiquei encantado com sua beleza e serenidade, nunca conheci uma senhorita com tão belos dotes.
Nesse instante ouço as vozes dos capachos do barão à procura dos intrusos. Ela responde:
- É Nastácia.
- Encantado o meu é ...
Ouvindo a proximidade dos passos e das vozes dos guardas ela me interrompe dizendo que teria que sair o mais rápido possível dali ou seria pego, aflito despeço-me com um beijo em seu rosto, dizendo:
- Encontre-me amanhã no lago da ponte, estarei lá ás quatro horas para lhe declamar alguns de meus novos poemas.
E saio as pressas à procura da porta dos fundos.
O restante da noite, não consigo lembrar até minha volta ao bar e consequentemente ao hotel, no quarto com essas duas ruivas, mas com certeza a madrugada foi intensa, pela alegria no olhar de ambas ao acordarem.
Veio a lembrança. Putz! Tenho apenas meia hora para chegar à ponte do lago, e ainda tenho que alimentar o cavalo, já há várias horas com fome e frio, estou fudido, me atrasar com a mulher dos meus sonhos logo no primeiro encontro marcado. Apresso-me, fazendo apenas as necessidades e asseios básicos para um encontro às pressas.
Faço tudo a tempo, de chegar e vê-la indo embora, aumento as chicotadas, gritando seu nome desesperadamente, e enfim consigo alcança-la. Desculpo-me fervorosamente pelo atraso, e vejo que estava quase arrependida de ter me conhecido, meio que se perguntando o que tinha passado por sua cabeça em ter marcado esse encontro.
Mas encontro minha única saída para que o nosso romance tome rumo, ou seja, lhe oferecendo um passeio no Vale Sombrio, que para não mal impressioná-la, o chamo de Bosque dos Amores. Ainda arredia, ela não concorda no primeiro momento, no entanto, a provoco sem mesmo descer do cavalo, com uma frase desafiadora:
- Você prefere voltar para sua vidinha de princesa, a descobrir o que há de melhor em si mesma e em seu coração?
Percebo que não a agradei muito com tal provocação, mas a tempo corrijo, falando que lá tem a cachoeira mais linda e todo o continente. Timidamente ela concorda, com a condição de que voltaríamos antes de escurecer. Desço do cavalo, ajudo-a subir no mesmo e saio puxando por um micro-atalho que descobri pela floresta. Se fossemos cavalgando seria bem mais rápido, não que eu não quisesse, mas o cavalo não suportaria tanto peso.
Ao chegarmos, após quinze minutos de trilha, ela se encanta com a paisagem de frente a cachoeira quase desconhecida pelos habitantes de Pushkin, que realmente era encantadora, abre os braços e subitamente da um enorme grito:
- Aaaahhhhhh!!!!
Tomo um susto, o cavalo ringe e o eco de sua voz aguda se espalha entre as árvores e as rochas, num desabafo misto de alívio e liberdade. Nesse momento já havia deixado de lado sua timidez e começou a tirar parte de suas roupas, saindo em direção a um pedregulho de mais ou menos quatro metros de altura, para dar um mergulho no lago que deságua a cachoeira. Dispo-me parcialmente também e pulo em seguida.
Nos abraçamos e nos beijamos intensamente, fomos para a parte mais rasa e transamos entre as pedras até escurecer sem nos preocupar com o mundo lá fora, apenas contemplando o prazer e a paisagem. Gozamos juntos continuas vezes, até lembrarmos que realmente estava ficando tarde demais para voltarmos.
Chegando próximo à cidade nos despedimos sem que ninguém nos notasse, e meio que sem jeito ela falou:
- Vem cá, diga-me uma coisa, só por curiosidade, sem querer ser chata ou qualquer coisa parecida, mas qual é o seu nome mesmo hein?
E como se nada tivesse acontecido para não dar nos dos curiosos de plantão, respondo-a beijando sua mão:
- Muito prazer senhorita, espero vê-la em breve, me chamo Alexandervith Fedorévisk, mas você pode chamar-me de Fedox, Alex Fedox.
E ao chegar em casa com as roupas ainda levemente umedecidas, Nastácia inventou que foi dar um passeio e havia perdido a hora, mas mesmo assim sofreu um breve ataque verbal de seu noivo, e a notícia que iriam para Paris. Sem muito espanto Nastácia foi deitar-se e só percebeu o impacto da notícia quando viu na manhã seguinte suas malas já prontas. Mal sabia ela que havia engravidado naquela tarde de amor e que agora estava bem longe do seu verdadeiro amor e pai do seu filho, mas isso já é outra história.

Alex Fedox, Abril de 2004. Qualquer coincidência com Dostoievski é mera semelhança.

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